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Do canteiro à mesa de decisão, mulheres consolidam sua presença e ampliam horizontes na CAIXA

Sete trajetórias reunidas em Recife mostram como mulheres ocupam diferentes espaços técnicos, associativos e de liderança, enquanto CAIXA e ANEAC avançam em políticas voltadas à carreira, participação e desenvolvimento profissional

Quando Jucélia Mendonça pediu que as mulheres presentes no auditório levantassem as mãos, a resposta apareceu antes de qualquer gráfico. Entre cerca de 118 participantes do Encontro Técnico da ANEAC, pouco mais de 20 eram mulheres. No palco, a imagem era outra.

Ali estavam profissionais da Engenharia, Arquitetura, Direito, Penhor e Trabalho Social. Mulheres à frente de associações nacionais e dos conselhos da própria ANEAC. Algumas chegaram naturalmente à representação. Outras precisaram que alguém enxergasse nelas uma possibilidade que ainda não haviam reconhecido. Havia quem desejasse avançar na gestão e quem defendesse o direito de continuar crescendo como técnica.

O painel “Mulheres que constroem a CAIXA” mostrou que não existe uma única trajetória feminina.

Jucélia, diretora institucional da ANEAC, brincou que aquela mesa estava “fora da curva” em relação ao auditório, mas afastou desde o início a ideia de uma conversa destinada somente às mulheres.

“Eu entendo como uma discussão da sociedade.”

A questão não era demonstrar que mulheres podem comandar obras, desenvolver projetos, avaliar joias, exercer advocacia, conduzir políticas sociais ou presidir entidades. As profissionais sentadas à mesa já faziam tudo isso. O debate estava um passo adiante: como ampliar as possibilidades de carreira, especialização, representação e liderança de uma presença que já faz parte da realidade da CAIXA?

Aline Faria Siqueira
Presidente do Conselho Deliberativo da ANEAC

Arquiteta e urbanista, Aline participa do movimento profissional desde jovem e construiu uma trajetória marcada pela representação de classe. Hoje, preside o Conselho Deliberativo da ANEAC, órgão que acompanha e orienta decisões estratégicas para a Associação.

Sua principal provocação, porém, não foi sobre chegar a uma posição de comando.

“Eu quero continuar sendo técnica.”

Depois de 15 anos de CAIXA, Aline questionou a ideia de que crescimento profissional precise significar, necessariamente, migração para a gestão. Para ela, também é preciso criar perspectivas de desenvolvimento, reconhecimento e maior responsabilidade para quem deseja permanecer especialista.

Ao mesmo tempo em que participa das decisões sobre os rumos da Associação, defende que carreira e liderança podem assumir formatos diferentes, sem que a gestão seja o único caminho.

Eloisa Nascimento de Moura
Presidente da Social CAIXA

Psicóloga, Eloisa construiu sua trajetória na CAIXA a partir do contato direto com as pessoas. Passou pela agência, atuou em diferentes áreas e encontrou no Trabalho Social um campo em que sua formação e a missão pública da instituição se cruzaram. A liderança veio depois, quando assumiu a presidência da Social CAIXA.

Filha adotiva, contou que um teste de DNA a levou ao encontro de sua família biológica e à descoberta de mais de uma dezena de irmãos. Hoje, à frente da entidade, atua em temas ligados à cidadania, habitação, geração de renda, emergência climática e prevenção da violência contra a mulher.

“A gente é responsável por fornecer cidadania para aquelas pessoas que são beneficiárias dos projetos da CAIXA.”

Na foto, o vestido vermelho com tênis reforça uma imagem que combina bem com sua trajetória: liderança sem rigidez, com identidade própria.

]Jucélia Mendonça
Diretora institucional da ANEAC

Engenheira civil, Jucélia entrou na CAIXA em 2010 depois de atuar no Ministério das Cidades. Trabalhou com habitação, infraestrutura, avaliação e grandes projetos. No início da profissão, precisou construir autoridade em ambientes de obra habituados a reconhecer homens como referência de comando.

Com o tempo, percebeu que ela própria havia incorporado parte daquele padrão e chegara a cobrar de outras mulheres determinadas posturas para que fossem respeitadas no canteiro. A experiência mudou sua percepção. Competência técnica não deveria depender da reprodução de um modelo específico de autoridade.

“Eu entendo como uma discussão da sociedade.”

Lineia Costa
Vice-presidente da ADVOCEF

Lineia construiu sua trajetória na CAIXA desde a rotina de agência, onde atuou no atendimento, entregou cartões do Bolsa Família, substituiu gerentes e viveu mobilizações da categoria. Foi também nesse percurso que se aproximou do movimento associativo e, a partir de 2018, passou a participar mais diretamente de uma estrutura de representação com presença feminina crescente.

Hoje vice-presidente da ADVOCEF, Linéia destacou uma liderança que combina diálogo, sensibilidade e disposição para o enfrentamento quando necessário. Para ela, a mudança ganha significado quando a presença feminina se traduz em participação efetiva nas decisões e em relações profissionais baseadas em respeito.

“Nós somos respeitadas, nós decidimos, nós conversamos.”

Maristela Okamura
Presidente do Conselho Fiscal da ANEAC

Maristela conheceu realidade semelhante décadas antes. Engenheira civil, passou quase dez anos administrando obras com centenas de trabalhadores. Era comum homens chegarem perguntando “pelo engenheiro” e descobrirem que a responsável técnica era a jovem diante deles.

Depois vieram a administração pública, a atividade sindical, as entidades profissionais e a CAIXA. Hoje, preside o Conselho Fiscal da ANEAC. Ao painel, levou também um episódio recente de desrespeito durante uma vistoria e transformou a experiência num pedido mais amplo para que colegas estejam atentos a situações de constrangimento que nem sempre são verbalizadas por quem as sofre.

“Nosso trabalho é gente atendendo gente.”

Melissa Pinheiro
Presidente da ADVOCEF

Melissa levou ao painel a relação entre carreira e diferentes ciclos da vida. Entrou na CAIXA em 2005, avançou na área jurídica e chegou a uma função de coordenação. Tornou-se mãe e, anos depois, ao decidir ter o segundo filho, abriu mão da função e de parte relevante da remuneração.

Foi nesse contexto que citou Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2023, cujos estudos ajudam a compreender como formação da família, disponibilidade profissional e modelos de trabalho interferem de maneira diferente nas trajetórias de homens e mulheres.

No movimento associativo, encontrou colegas que a estimularam a assumir novas responsabilidades. Ao falar aos homens presentes, deixou um pedido direto: “Nos puxem e estejam conosco.”

Michele Maria Venzo
Presidente da ANACEF

Formada em Arquitetura e Urbanismo, Michele atua no Penhor, atividade que envolve matemática, física, química, materiais, joias e pedras preciosas.

Segundo os números apresentados por ela, cerca de 75% dos clientes do Penhor são mulheres, enquanto aproximadamente 65% dos avaliadores são homens.

Sua própria trajetória mostra como referências profissionais podem mudar. Durante algum tempo, Michele ajudava a organizar encontros enquanto outro profissional assumia a exposição técnica. Até ser estimulada a ocupar também a posição de instrutora. Vieram preparação, cursos de dicção e oratória e, depois, a presidência de uma entidade nacional.

“Eu era a nerd da primeira fila e ficava quieta.”

As sete histórias mostram que liderança não é um destino obrigatório e que também não existe uma única maneira de exercê-la. Há quem encontre realização na gestão, quem prefira aprofundar a especialização, quem esteja no associativismo desde cedo e quem descubra esse caminho depois de anos de carreira.

A transformação percebida nessas trajetórias aparece hoje de maneira mais explícita nas políticas da própria CAIXA.

A equidade de gênero integra os cinco eixos prioritários do Programa de Diversidade e Inclusão. Em 2025, o Estatuto Social passou a prever que pelo menos um terço dos cargos de alta gestão seja ocupado por mulheres. A empresa estabeleceu ainda o compromisso de chegar a 36% de mulheres nas chefias de unidade até 2030.

A meta ganha significado diante dos próprios números. Se as mulheres representam 42,6% do quadro permanente, sua participação nas chefias de unidade ainda estava em 24% nos dados consolidados de 2024.

A discussão, portanto, já não é sobre ingresso feminino na instituição. É sobre como uma presença consolidada se projeta pelas diferentes possibilidades de carreira e pelos níveis de responsabilidade.

A história da CAIXA ajuda a colocar esse movimento em perspectiva. Em 1921, a instituição se tornou a primeira organização financeira brasileira a contratar mulheres. Em 2006, Maria Fernanda Coelho tornou-se a primeira mulher a presidir um banco no país.

Mais de um século depois, a pauta mudou. Já não se trata apenas de entrar. Trata-se de desenvolver carreira, aprofundar conhecimento, liderar, representar e participar das decisões.

Em 2026, o programa Juntos por Elas ampliou essa agenda com ações de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres, acolhimento, capacitação e iniciativas que envolvem também lideranças masculinas.

A ampliação das oportunidades deixa, assim, de ser uma discussão sobre quem deve ceder lugar a quem. Passa a envolver a capacidade da instituição de reconhecer conhecimento, experiência e potencial onde eles estiverem.

É nesse cenário que o ANEAC Mulher ganha uma dimensão que vai além de um painel.

Lançado em março de 2026, o programa foi criado para ouvir, conectar e fortalecer engenheiras civis, arquitetas, engenheiras de telecomunicações e administradoras de redes da CAIXA. Sua agenda inclui liderança, trajetória profissional, saúde, capacitação, desenvolvimento pessoal e equilíbrio entre vida e trabalho, e o encontro de Recife mostrou por que essa escuta é importante.

As profissionais reunidas ali não querem todas a mesma coisa. Aline deseja continuar técnica. Outras escolheram a gestão. Melissa precisou reorganizar a carreira em determinado momento da vida. Linéia construiu uma trajetória de representação associativa. Michele descobriu uma vocação para ensinar e representar sua categoria. Eloisa chegou à presidência sem planejar esse destino. Maristela acumula décadas de Engenharia, gestão pública e associativismo. Jucélia reviu até comportamentos que ela própria havia assimilado no início da profissão.

Não é necessário transformar essas trajetórias em histórias de heroísmo. Elas revelam algo mais útil para uma organização: profissionais igualmente qualificadas podem desejar caminhos diferentes e exercer liderança de maneiras distintas.

Isso não torna as trajetórias iguais nem elimina os desafios. Muda, porém, aquilo que passa a ser visto como natural dentro de uma organização.

As mulheres daquele painel não aguardam um futuro em que poderão ajudar a construir a CAIXA. Elas já estão na obra, na análise técnica, na Arquitetura, no Direito, no Penhor, no Trabalho Social, nos conselhos e nas presidências.

Ao consolidarem essa presença, ampliam e sedimentam o caminho para quem vem depois.